O arranque do exercício económico de 2026 em Angola está a ser marcado por um momento paradoxal: enquanto os indicadores de inflação dão sinais de abrandamento, as contas públicas revelam uma pressão de tesouraria que obrigou o Banco Nacional de Angola (BNA) a assumir um papel de financiador directo do Estado.
Este recurso intensivo à autoridade monetária levanta questões sobre a eficácia da arrecadação de receitas ordinárias e a gestão do calendário de pagamentos do Estado.
A inflação homóloga em Março fixou-se nos 12,42%, uma descida face aos 13,35% de Fevereiro. Este arrefecimento permitiu ao Comité de Política Monetária manter a Taxa BNA nos 17,50%, sinalizando estabilidade.
Contudo, o custo desta estabilidade reflecte-se nas contas externas. No primeiro trimestre, as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) sofreram um desgaste de 480 milhões USD. Apesar de uma recuperação pontual em Abril, que elevou o stock para 16,23 mil milhões USD (garantindo 8 meses de importações), a correlação entre o apoio ao Tesouro e a queima de divisas permanece sob o radar de instituições como o FMI, que defendem uma separação rígida entre a política monetária e a execução orçamental.
O financiamento de 830 milhões USD pelo BNA no primeiro trimestre funciona como um balão de oxigénio para o Governo, mas transporta consigo riscos de médio prazo. Se esta liquidez não for rapidamente absorvida pela produção interna ou esterilizada via mercado de capitais, Angola poderá enfrentar pressões cambiais no segundo semestre, pondo em risco a meta de fechar o ano com uma inflação de 13,5%.
Assim, o sucesso de 2026 dependerá menos da vontade do BNA em emprestar e muito mais da capacidade do Executivo em converter o preço favorável do barril em eficiência orçamental.